Cirurgia das Glândulas Salivares: Quando é Necessária e Como é a Recuperação

As glândulas salivares são estruturas essenciais para a saúde da boca e do sistema digestivo. Quando adoecem — seja por infecções, cálculos, cistos ou tumores —, podem causar dor intensa, inchaço e comprometer funções como mastigar e engolir. Em muitos casos, o tratamento definitivo é cirúrgico, exigindo a habilidade de um especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Neste artigo, a Dra. Sheila de Sá explica quais são as principais doenças das glândulas salivares, quando a cirurgia é indicada e o que esperar da recuperação.

O Que São as Glândulas Salivares?

As glândulas salivares produzem e secretam saliva, que tem funções fundamentais: lubrifica os alimentos para facilitar a mastigação e a deglutição, inicia a digestão dos carboidratos e protege a mucosa oral de bactérias e fungos.

As glândulas salivares maiores são três pares:

  • Parótidas: as maiores, localizadas na frente e abaixo das orelhas, próximas ao ângulo da mandíbula;
  • Submandibulares: localizadas abaixo da mandíbula, nos dois lados;
  • Sublinguais: localizadas sob a língua, no assoalho da boca.

Além dessas, existem centenas de glândulas salivares menores distribuídas pela mucosa da boca, palato, lábios e faringe. Qualquer uma delas pode ser acometida por doenças, embora as maiores sejam as mais frequentemente envolvidas. As doenças salivares integram o amplo espectro das doenças da cabeça e pescoço tratadas pelo especialista.

Principais Doenças das Glândulas Salivares

Sialolitíase (Cálculos Salivares)

A sialolitíase é a formação de pedras (cálculos) dentro dos ductos das glândulas salivares, bloqueando o fluxo de saliva. É a condição mais comum das glândulas salivares e afeta principalmente a glândula submandibular (cerca de 80% dos casos). Isso se explica pelo percurso longo e ascendente do ducto submandibular, e pela composição mais espessa de sua saliva.

Sintomas: dor e inchaço súbito abaixo da mandíbula ou no assoalho da boca, especialmente durante as refeições (quando a produção de saliva aumenta). O inchaço regride parcialmente após a refeição, mas tende a piorar com o tempo.

Tratamento: pequenos cálculos podem ser removidos por massagem ou por sialoscopia (procedimento endoscópico minimamente invasivo). Cálculos maiores ou que causam infecções de repetição podem exigir cirurgia para remoção do cálculo ou da glândula.

Sialadenite (Infecção/Inflamação das Glândulas Salivares)

A sialadenite é a inflamação ou infecção das glândulas salivares. Pode ser aguda (causada por bactérias, como o Staphylococcus aureus) ou crônica (relacionada a obstrução por cálculos, doenças autoimunes ou idiopática). Provoca dor, inchaço, vermelhidão e, nos casos bacterianos, febre e secreção purulenta pelo ducto da glândula.

Tratamento: antibioticoterapia, hidratação e massagem da glândula na sialadenite aguda. Em casos crônicos recidivantes, pode ser necessária a remoção cirúrgica da glândula.

Cisto de Ranula

A ranula é um cisto de retenção que se forma no assoalho da boca, associado à glândula sublingual. Pode ser superficial (ranula simples) ou profunda (mergulhante), quando se estende para o pescoço. Apresenta-se como um nódulo mole, azulado, no assoalho da boca. O tratamento é cirúrgico, com remoção do cisto e da glândula sublingual para evitar recidivas.

Mucocele

Causada pelo traumatismo de uma pequena glândula salivar menor, geralmente no lábio inferior. Forma uma vesícula transparente ou azulada, cheia de muco. Costuma rebentar espontaneamente, mas recidiva. O tratamento definitivo é a excisão cirúrgica ambulatorial da lesão e da glândula menor envolvida.

Síndrome de Sjögren

Doença autoimune que afeta principalmente as glândulas salivares e lacrimais, causando boca e olhos secos. O tratamento é clínico, mas o cirurgião de cabeça e pescoço pode ser envolvido em casos com complicações ou quando há necessidade de biópsia das glândulas salivares menores para diagnóstico.

Tumores das Glândulas Salivares

Os tumores das glândulas salivares representam cerca de 1% de todos os cânceres. A maioria (cerca de 70-80%) é benigna, sendo o adenoma pleomórfico o mais frequente. Os tumores malignos incluem o carcinoma mucoepidermoide, o adenocarcinoma, o carcinoma adenoide cístico, entre outros. O maior risco de malignidade está nas glândulas menores e na glândula submandibular, em comparação com a parótida.

Sintomas suspeitos de malignidade: crescimento rápido do tumor, dor, fixação aos planos profundos, envolvimento do nervo facial (paralisia facial) e presença de linfonodos cervicais aumentados. Se você identificou um nódulo no pescoço ou na face que não desaparece, busque avaliação urgente.

Quando a Cirurgia das Glândulas Salivares é Indicada?

  • Cálculos salivares de grande volume ou com infecções recorrentes;
  • Sialadenite crônica recidivante não responsiva ao tratamento clínico;
  • Tumores benignos ou malignos;
  • Cistos (ranula, mucocele) recorrentes;
  • Necessidade de biópsia diagnóstica de lesão suspeita.

Os Principais Procedimentos Cirúrgicos

Parotidectomia

É a remoção parcial ou total da glândula parótida. Por ser a maior glândula salivar e por ter o nervo facial passando por dentro dela — controlando os movimentos de todo o rosto —, a parotidectomia é considerada uma das cirurgias mais delicadas da especialidade. A preservação do nervo facial é a prioridade absoluta e exige formação específica do cirurgião. A incisão é feita atrás da orelha, seguindo uma linha que fica relativamente discreta após a cicatrização.

Complicações possíveis: paresia ou paralisia facial temporária (ocorre em alguns casos e geralmente se resolve), síndrome de Frey (sudorese durante as refeições no local da cirurgia), e infecção da ferida.

Exérese da Glândula Submandibular

A remoção da glândula submandibular é indicada em casos de sialolitíase, sialadenite crônica ou tumores. A incisão é feita abaixo da mandíbula, em local discreto. As estruturas que precisam ser preservadas durante essa cirurgia incluem o nervo marginal mandibular (que comanda o sorriso), o nervo lingual e o nervo hipoglosso (responsável pelos movimentos da língua).

Remoção da Glândula Sublingual

Indicada principalmente no tratamento da ranula. É realizada via oral (pela boca), sem incisão externa.

Como é a Recuperação Após a Cirurgia das Glândulas Salivares?

A recuperação varia com a extensão da cirurgia e com a glândula envolvida:

  • Parotidectomia: internação de 1 a 2 dias; repouso de 7 a 14 dias; retorno ao trabalho leve em cerca de 10 a 14 dias. Em casos de parotidectomia total com esvaziamento cervical (tumores malignos), a recuperação é mais prolongada;
  • Exérese submandibular: geralmente ambulatorial ou com 1 dia de internação; repouso de 5 a 7 dias; retorno ao trabalho em cerca de 7 a 10 dias;
  • Remoção sublingual: procedimento ambulatorial com recuperação rápida.

Para entender melhor os cuidados gerais no pós-operatório de cirurgia cervical, acesse o artigo completo sobre quanto tempo demora a recuperação de uma cirurgia no pescoço.

Diagnóstico das Doenças das Glândulas Salivares

O diagnóstico é feito por meio de exame clínico detalhado, complementado por:

  • Ultrassonografia: exame de primeira escolha para avaliar as glândulas salivares maiores — identifica cálculos, cistos e tumores;
  • Tomografia e ressonância magnética: para avaliação de tumores extensos ou com suspeita de invasão de estruturas adjacentes;
  • Sialoscopia: procedimento endoscópico que permite visualizar e tratar cálculos dentro dos ductos salivares de forma minimamente invasiva;
  • Biópsia por agulha fina ou excisional: para análise histológica de tumores.

Síndrome de Frey: Uma Complicação Peculiar da Parotidectomia

A síndrome de Frey (ou sudorese gustatória) é uma complicação tardia da parotidectomia que merece destaque pela sua peculiaridade. Ela se manifesta como suor ou rubor na pele do rosto, na área da cirurgia, durante as refeições — especialmente ao comer alimentos que estimulam muito a produção de saliva. Ocorre porque fibras nervosas que controlavam a glândula parótida, ao se regenerarem, passam a inervar equivocadamente as glândulas sudoríparas da pele da região. A prevalência é variável, mas pode afetar uma parcela significativa dos pacientes operados. Felizmente, na maioria dos casos os sintomas são leves e toleráveis. Quando incomodam, podem ser tratados com aplicações de toxina botulínica na área afetada, com excelente resultado.

Sialoscopia: O Avanço Minimamente Invasivo no Tratamento dos Cálculos Salivares

A sialoscopia é um procedimento endoscópico que permite a visualização direta do interior dos ductos das glândulas salivares maiores com um minúsculo endoscópio (sialoendoscópio). Por meio desse procedimento, é possível identificar e remover cálculos salivares, dilatar estenoses (estreitamentos) dos ductos e realizar biópsias, tudo sem necessidade de incisão externa. É um avanço importante que permite tratar a sialolitíase com muito menos morbidade do que as técnicas cirúrgicas tradicionais. Em casos selecionados, a sialoscopia combinada com litotripsia (fragmentação do cálculo por ondas de choque) possibilita tratar pedras maiores de forma minimamente invasiva.

Tumores Malignos das Glândulas Salivares: O Carcinoma Adenoide Cístico

O carcinoma adenoide cístico merece destaque especial entre os tumores malignos das glândulas salivares. É um tumor de crescimento lento, porém com alto potencial de recidiva local e de disseminação por via perineural — ou seja, ele tem a peculiaridade de se disseminar ao longo dos nervos, podendo causar dor, formigamento ou paralisia em locais distantes do tumor primário. O tratamento inclui cirurgia ampla e radioterapia adjuvante. O acompanhamento de longo prazo é essencial, pois recidivas tardias (mesmo décadas após o tratamento) são descritas.

Doenças das Glândulas Salivares em Crianças

As doenças das glândulas salivares também ocorrem na faixa pediátrica. A caxumba (parotidite epidêmica viral) é a causa mais comum de aumento da parótida em crianças, embora sua incidência tenha caído dramaticamente com a vacinação tríplice viral. Hemangiomas e malformações vasculares da parótida são mais comuns na infância e exigem abordagem especializada. Cistos e tumores, embora menos frequentes que em adultos, também podem acometer crianças e adolescentes. A abordagem em pediatria exige cuidado adicional para preservar o crescimento facial e o desenvolvimento do nervo facial.

Exames de Imagem Avançados nas Doenças Salivares

Além da ultrassonografia convencional, exames de imagem mais sofisticados podem ser necessários na investigação de doenças salivares complexas:

  • Ressonância magnética (RM): superior à tomografia para avaliar extensão de tumores, invasão de estruturas profundas e relação com o nervo facial na parótida;
  • Sialografia: exame contrastado dos ductos salivares, útil no diagnóstico de estenoses e fístulas;
  • Cintilografia de glândulas salivares: avalia a função glandular global, útil na síndrome de Sjögren e em outros distúrbios funcionais;
  • PET-CT: indicado para estadiamento de tumores malignos.

Perguntas Frequentes Sobre Cirurgia das Glândulas Salivares

A retirada de uma glândula salivar afeta a produção de saliva?

A remoção de uma glândula salivar maior — como a submandibular ou uma parótida — raramente causa boca seca significativa, pois as demais glândulas compensam a produção. A xerostomia (boca seca) clinicamente relevante é mais comum quando há comprometimento de múltiplas glândulas, como ocorre em alguns pacientes submetidos à radioterapia na região ou em portadores da síndrome de Sjögren.

A cirurgia da parótida deixa cicatriz visível?

A incisão da parotidectomia é feita na região pré-auricular (na frente da orelha) e se estende para o pescoço. Com o tempo e os cuidados adequados com a cicatriz, a maioria das incisões fica bastante discreta. A técnica cirúrgica cuidadosa e o uso de suturas adequadas contribuem para um resultado estético satisfatório.

É possível ter cálculo salivar em mais de uma glândula ao mesmo tempo?

Sim, embora seja menos comum. Pacientes com tendência a calcificações, como aqueles com hipercalcemia ou doenças do metabolismo do cálcio, podem desenvolver cálculos em múltiplas glândulas. Nesses casos, o tratamento da condição de base é essencial para prevenir novas formações.

Tumores de glândulas salivares podem recidivar após a cirurgia?

Sim. O adenoma pleomórfico, principal tumor benigno da parótida, tem uma taxa de recorrência de até 3-4% quando a ressecção não é adequada. Por isso, a retirada com margem segura e a técnica cirúrgica correta são fundamentais. Tumores malignos têm taxa de recidiva que depende do tipo histológico, estadiamento e adequação da margem cirúrgica.

Agende Sua Consulta com a Dra. Sheila de Sá

Dra. Sheila de Sá é especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço, com ampla experiência no diagnóstico e tratamento cirúrgico das doenças das glândulas salivares. Se você tem inchaço recorrente no pescoço ou na face, dor ao comer, ou percebeu um nódulo na região, não deixe de buscar avaliação especializada. Conheça também nossos artigos sobre doenças do pescoço e sinais de alerta de nódulos cervicais.

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Este conteúdo foi elaborado pela equipe da Dra. Sheila de Sá com base em evidências científicas e na experiência clínica da especialista. Não substitui a consulta médica individualizada.

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