Câncer de Laringe e Faringe: Sintomas, Fatores de Risco e Tratamento Cirúrgico

câncer de laringe e o câncer de faringe estão entre os tumores malignos de cabeça e pescoço mais comuns no Brasil. Juntos, causam milhares de mortes por ano — muitas delas evitáveis com o diagnóstico precoce. Neste artigo, a Dra. Sheila de Sá, especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço, explica os principais aspectos dessas doenças: o que são, quem está mais sujeito, quais são os sintomas de alerta e como é realizado o tratamento.

O Que São a Laringe e a Faringe?

laringe — popularmente conhecida como caixa de voz — é uma estrutura cartilaginosa localizada na parte frontal do pescoço, abaixo da faringe. Abriga as cordas vocais, responsáveis pela produção da voz, e é fundamental também para a respiração e para a deglutição segura (impedindo que alimentos caiam nas vias aéreas). A faringe é o canal que conecta o nariz e a boca à laringe e ao esôfago, dividida em três partes: nasofaringe (atrás do nariz), orofaringe (atrás da boca) e hipofaringe (abaixo da orofaringe).

Ambas as estruturas podem ser afetadas por tumores malignos que, quando diagnosticados tardiamente, comprometem seriamente a qualidade de vida do paciente. Conheça as principais doenças que afetam a região do pescoço e da garganta.

Epidemiologia no Brasil

O câncer de laringe é o nono tipo de câncer mais comum entre os homens brasileiros e representa cerca de 25% de todos os tumores de cabeça e pescoço. O câncer de faringe (incluindo a orofaringe e a hipofaringe) soma outros 15% dos casos. Aproximadamente 76% dos casos de câncer de cabeça e pescoço no Brasil são diagnosticados em estágio avançado — um dado que reflete a falta de informação e a subestimação dos sintomas iniciais pela população.

Fatores de Risco

Os fatores de risco para o câncer de laringe e faringe são bem estabelecidos:

Tabagismo

O cigarro é o principal fator de risco. Fumantes têm até 10 vezes mais chances de desenvolver câncer de laringe em comparação a não fumantes. Charutos, cachimbos e narguilé também aumentam o risco.

Consumo Excessivo de Álcool

O etilismo é um fator de risco independente, mas seu efeito se potencializa de forma dramática quando combinado ao tabagismo: juntos, o álcool e o cigarro estão relacionados a 70 a 75% de todos os casos de câncer de cabeça e pescoço. Quando combinados, aumentam o risco em até 20 vezes em comparação a quem não fuma nem bebe.

Infecção pelo HPV

O papilomavírus humano (HPV), transmitido sexualmente, tem aumentado a incidência de câncer de orofaringe especialmente entre adultos jovens. Os tumores associados ao HPV, em geral, têm melhor resposta ao tratamento do que os associados ao tabaco e álcool.

Outros Fatores

  • Refluxo gastroesofágico crônico não tratado;
  • Má higiene bucal e dentária;
  • Exposição ocupacional a poeiras, químicos e amianto;
  • Histórico familiar de câncer de cabeça e pescoço;
  • Exposição solar excessiva sem proteção (especialmente para lábios).

Sintomas do Câncer de Laringe

Os sintomas variam de acordo com a localização do tumor dentro da laringe:

  • Rouquidão persistente: é o sintoma mais precoce e mais comum do câncer de laringe. Qualquer rouquidão que persiste por mais de 3 semanas, sem causa explicada, deve ser investigada com urgência;
  • Dor ou desconforto ao engolir;
  • Sensação de corpo estranho na garganta;
  • Tosse persistente (às vezes com sangue);
  • Dificuldade para respirar (em estágios avançados);
  • Perda de peso;
  • Nódulo palpável no pescoço: pode ser a primeira manifestação quando há metástase em linfonodo cervical.

Se você identificou algum desses sintomas, confira nosso artigo sobre quando um nódulo no pescoço é preocupante e busque avaliação especializada.

Sintomas do Câncer de Faringe

Os sintomas do câncer de faringe variam conforme a localização (naso, oro ou hipofaringe):

  • Dor de garganta persistente;
  • Dificuldade para engolir (disfagia);
  • Voz abafada ou nasalada;
  • Obstrução nasal, sangramento pelo nariz (nasofaringe);
  • Dor de ouvido unilateral sem causa aparente (chamada otalgia referida);
  • Nódulo no pescoço;
  • Halitose (mau hálito) persistente;
  • Perda de peso sem causa aparente.

Diagnóstico

O diagnóstico é realizado pelo especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço por meio de:

Nasofibrolaringoscopia (NFL)

Exame endoscópico realizado com um tubo flexível introduzido pelo nariz até a laringe e faringe. Permite a visualização direta das mucosas, identificação de lesões e avaliação das cordas vocais. É indispensável para o diagnóstico precoce.

Biópsia

Uma amostra de tecido da lesão suspeita é retirada para análise histológica. É o exame definitivo para confirmar o diagnóstico de câncer.

Exames de Imagem

Tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) e PET-CT são utilizados para avaliar a extensão do tumor, comprometimento de estruturas adjacentes, linfonodos e presença de metástases à distância.

Tratamento do Câncer de Laringe e Faringe

O tratamento depende do estágio da doença, da localização do tumor e das condições clínicas do paciente. A abordagem é geralmente multidisciplinar, envolvendo o cirurgião de cabeça e pescoço, oncologista, radioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista e psicólogo.

Cirurgia

É o tratamento de escolha em muitos casos. Nas fases iniciais (estágios I e II), é possível realizar cirurgias menores e preservadoras da laringe, inclusive com técnicas endoscópicas a laser, que mantêm a voz com qualidade satisfatória. Em estágios mais avançados, pode ser necessária a laringectomia parcial ou total. Na laringectomia total, o paciente perde a voz natural, mas pode aprender formas alternativas de comunicação com a ajuda da fonoaudiologia. O esvaziamento cervical é frequentemente associado à ressecção tumoral. Leia mais sobre o esvaziamento cervical.

Radioterapia

Pode ser indicada como tratamento exclusivo em tumores iniciais de laringe (preservando a voz), como complemento à cirurgia ou como paliação em casos avançados. A radioterapia moderna oferece técnicas de alta precisão que minimizam os efeitos colaterais.

Quimioterapia e Imunoterapia

Geralmente utilizadas em associação à radioterapia (quimiorradioterapia concomitante) em casos avançados ou inoperáveis, ou como tratamento paliativo. A imunoterapia (como o nivolumabe) tem mostrado resultados promissores em tumores recidivados ou metastáticos.

Reabilitação Após o Tratamento

O tratamento do câncer de laringe e faringe pode afetar funções vitais como a fala, a deglutição e a respiração. A reabilitação multidisciplinar é essencial:

  • Fonoaudiologia: para reabilitação vocal e da deglutição;
  • Nutrição: para garantir aporte nutricional adequado, especialmente em casos com disfagia;
  • Fisioterapia: para reabilitação cervical e respiratória;
  • Suporte psicológico: para enfrentar os impactos emocionais do tratamento.

Para entender como é o processo de recuperação após cirurgias na região, acesse o artigo completo sobre recuperação de cirurgia no pescoço.

Prevenção é o Melhor Caminho

A maioria dos casos de câncer de laringe e faringe pode ser prevenida com mudanças de comportamento:

  • Parar de fumar (é o passo mais importante);
  • Reduzir ou eliminar o consumo de álcool;
  • Vacinar-se contra o HPV (disponível no SUS para crianças e adolescentes);
  • Tratar o refluxo gastroesofágico adequadamente;
  • Manter boa higiene bucal e realizar consultas odontológicas regulares;
  • Realizar consultas de check-up e não ignorar sintomas persistentes.

Estadiamento e Prognóstico

O estadiamento do câncer de laringe e faringe segue o sistema TNM, avaliando o tamanho e extensão do tumor primário (T), o comprometimento de linfonodos regionais (N) e a presença de metástases à distância (M). Nos estádios I e II (doença localizada), as taxas de cura são elevadas — podendo ultrapassar 80% com cirurgia isolada ou radioterapia. Nos estádios III e IV (doença regionalmente avançada ou metastática), o tratamento é mais complexo e o prognóstico mais reservado, embora ainda seja possível alcançar controle duradouro da doença.

O prognóstico também varia com a localização do tumor dentro da laringe. Tumores das cordas vocais (glóticos) têm melhor prognóstico, pois causam rouquidão precocemente, levando ao diagnóstico mais cedo. Tumores supraglóticos (acima das cordas vocais) e hipofaríngeos frequentemente são diagnosticados mais tarde, quando já há comprometimento de linfonodos.

Técnicas Cirúrgicas Preservadoras de Laringe

Um dos grandes avanços no tratamento do câncer de laringe nas últimas décadas é o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas que permitem a remoção do tumor com preservação parcial ou total da laringe — e, com ela, da voz natural. Entre essas técnicas destacam-se:

  • Microcirurgia endoscópica a laser (MLS): utilizada em tumores iniciais das cordas vocais, permite a remoção da lesão por via endoscópica (pela boca), sem incisão no pescoço. O paciente frequentemente recebe alta no mesmo dia ou no dia seguinte;
  • Hemilaringectomia: remoção de apenas um lado da laringe, preservando a outra corda vocal e a função respiratória;
  • Laringectomia supraglótica: remoção da parte superior da laringe, preservando as cordas vocais e a função vocal.

Quando a laringectomia total é inevitável, técnicas de reabilitação vocal permitem ao paciente recuperar a comunicação oral: voz esofágica (aprendida com fonoaudióloga), prótese traqueoesofágica ou laringe eletrônica.

O Papel do HPV nos Tumores de Orofaringe em Jovens

Nas últimas duas décadas, a incidência de câncer de orofaringe relacionado ao HPV aumentou significativamente, especialmente em adultos jovens sem histórico de tabagismo ou etilismo. Esses tumores, geralmente localizados nas amígdalas ou na base da língua, têm um comportamento biológico distinto dos tumores HPV-negativos: tendem a responder melhor ao tratamento e têm melhor prognóstico. A vacinação contra o HPV na infância e adolescência é a principal forma de prevenção desses tumores.

Cuidados Nutricionais Durante o Tratamento

O câncer de laringe e faringe e seu tratamento frequentemente comprometem a capacidade de alimentação. A disfagia (dificuldade para engolir) pode ser causada pelo próprio tumor, pela cirurgia ou pelos efeitos colaterais da radioterapia. A desnutrição é um problema sério nesses pacientes, associado a maiores complicações e piores resultados do tratamento. O suporte nutricional especializado — incluindo, quando necessário, alimentação por sonda nasogástrica ou gastrostomia — é parte indispensável do plano de tratamento.

Perguntas Frequentes Sobre Câncer de Laringe e Faringe

É possível preservar a voz no tratamento do câncer de laringe?

Sim, em muitos casos. Tumores iniciais (estágios I e II) podem ser tratados com radioterapia exclusiva ou com cirurgia endoscópica minimamente invasiva, ambas com preservação da voz. Mesmo em estágios mais avançados, há opções de laringectomias parciais que preservam a voz com qualidade satisfatória. A laringectomia total, que resulta em perda permanente da voz natural, é reservada para os casos mais avançados ou recidivados.

Câncer de garganta tem cura?

Sim. Quando diagnosticado nos estágios iniciais, o câncer de laringe e faringe tem altas taxas de cura — acima de 80% em muitos centros especializados. Mesmo em estágios mais avançados, o tratamento multidisciplinar pode alcançar controle duradouro da doença em uma parcela expressiva dos pacientes. O diagnóstico precoce é o fator mais importante para o prognóstico.

Devo parar de fumar antes de iniciar o tratamento?

Sim, absolutamente. Parar de fumar antes e durante o tratamento do câncer de laringe e faringe melhora significativamente os resultados: reduz complicações cirúrgicas, melhora a resposta à radioterapia, reduz o risco de segundo tumor primário e melhora a qualidade de vida geral. Nunca é tarde para parar.

Agende Sua Avaliação com a Dra. Sheila de Sá

Se você apresenta rouquidão persistente, dificuldade para engolir, nódulo no pescoço ou qualquer outro sintoma suspeito na garganta, não deixe para depois. O diagnóstico precoce pode mudar o prognóstico de forma decisiva. A Dra. Sheila de Sá oferece avaliação especializada e humanizada para pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de câncer de cabeça e pescoço.

👉 Central de Atendimento – WhatsApp: (71) 98842-3233

Este conteúdo foi elaborado pela equipe da Dra. Sheila de Sá com base em evidências científicas e na experiência clínica da especialista. Não substitui a consulta médica individualizada.

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